Processos Criativos
com Exposição


Esta ação educativa promovida pela Contempoarte tem por objetivo, oferecer aos seus participantes a oportunidade de conhecer de perto os processos criativos de diversos artistas contemporâneos.
Ao mesmo tempo, visa analisar e orientar as criações dos artistas participantes nas suas diversas linguagens, fornecendo adensamento conceitual e crítico sobre as obras apresentadas.
Este projeto de Orientação de Processos Criativos tem duração de seis meses e, o resultado dessa proposta é mostrado em uma exposição.
Orientação e Curadoria: Waldo Bravo.

2 vezes por mês
Segunda-feira, 17:00h às 19:00h
6 X R$ 165 (Módulos de 6 meses)



Centro Cultural Santo Amaro


Biblioteca Alceu Amoroso Lima


Club Paineiras do Morumby


Paço Municipal de Santo André


Centro Cultural Mestre Assis

Veja as últimas exposições:
INFORMAÇÕES (11) 99312-5595

 

Textos de apresentação
Exposições Individuais



Teias & Tramas

A artista Regina Helene utiliza um processo criativo em que incorpora o múltiplo, o heterogêneo. É uma expansão da escultura ao tratar de volumes flexíveis aglutinados, da costura informal, das linhas e rendas gráficas intuitivas e da adição de múltiplos materiais na sua estrutura-base.
As técnicas utilizadas pela artista têm por base a aglutinação mediante a assemblage, a tridimensionalidade e o objeto e, através dela, a artista alcança uma rica diversidade de forma, cor e volume, criando um vocabulário de impacto visual.
Na obra de Regina, a desconstrução da matéria é um elemento estrutural predominante, é seu território simbólico, no qual ela manifesta toda a sua personalidade.
Essas linhas e cordões dialogam com os volumes, com os preenchimentos e com os espaços cromáticos, outorgando a esses elementos que compõem a obra pesos e valores visuais diferenciados, conseguindo um resultado livre e corajoso, fruto dessa harmonia de excessos.
São esses cordões emaranhadas de teor orgânico e selvagem que modificam a percepção da assemblage saturada da artista, os quais conduzem nosso olhar pelos volumes e aglutinações, inserindo profundidade na obra e aumentando a força dos seus campos cromáticos.
A liberdade e a complexidade das suas criações dão início à formulação das próprias teorias visuais da artista, levando-nos a um imaginário singular de obras expressivas que retém o nosso olhar.
Embora vejamos uma aparente ambiguidade entre o território emocional e o racional, plasticamente o que acaba prevalecendo de modo geral no campo da representação são as composições abstratas, líricas e emotivas, nas quais os procedimentos híbridos estão ganhando espaço e corpo na atualidade.
As obras de Regina são selvagens ao extremo e, ao mesmo tempo, aconchegantes, e é justamente essa característica que torna sua obra atraente ao nosso olhar.

Waldo Bravo
Artista-curador e Arte-educador




A maciez das Cores

O experimentalismo poético tem levado Helena Falconi a transitar por diversas linguagens, numa relação livre de múltiplas possibilidades estéticas.
As obras atuais são o resultado de uma longa relação da artista com a pintura. São produções expressivas, vibrantes, vigorosas e repletas de sensualidade cromática.
A técnica da Feltragem adicionou materialidade, volume, maciez e aconchego às suas criações. A lã de carneiro foi incorporada no seu processo criativo com maestria. Na superfície da sua obra acontece um lindo diálogo entre cores, tonalidades e plasticidade cromática.
Quem acompanha o percurso da artista se surpreende com o vigor das suas novas obras e com a abrangência de sua narrativa poética no campo da abstração concreta.
A cor sempre esteve no centro das suas pesquisas e cada vez mais, adquire valor e importância. Mas as obras de Helena vão muito além das relações cromáticas e construtivas. Helena cria um território sensível, repleto de planos, profundidade, luz e sombra. Constrói tensões cromáticas e territoriais entre os espaços, fator determinante no valor expressivo entre as cores, definidas na sua relação lado a lado.
Suas indagações estéticas resultam da incorporação de experiências distintas na estrutura interna da sua linguagem.
Nesse território bidimensional, a artista se expressa com personalidade, revelando seu domínio da técnica e propostas artísticas.
Suas obras permitem variadas leituras no vocabulário artístico e, ao mesmo tempo, promovem uma ampliação de sentidos e significados em torno das propostas autorais.
Helena revela rica experiência vivencial representada em trabalhos equilibrados e sem excessos, desenvolvidos e lapidados ao longo de sua sensível trajetória de vida e arte.

Waldo Bravo
Artista-curador e Orientador






Poéticas de Resiliência

A resiliência é a capacidade para lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. Resiliência é sinônimo de vida e arte na trajetória de Edith Popluhar. A sua obra menciona poeticamente a sua passagem pela medicina e pela arte terapia. Na década de 80, após algumas importantes perdas familiares a artista entrou em depressão e, mergulhando na arte, superou desafios para alcançar seu equilíbrio interior.
Tratamentos de doenças e medicamentos que outrora fizeram parte do seu dia-a-dia, como médica, agora são matéria prima para as poéticas visuais de suas obras. Observando a história da arte podemos constatar que as melhores obras contemporâneas trazem consigo, incorporada, uma boa carga de autobiografia.
De modo geral, as embalagens de medicamentos, após seu uso, são descartadas. As obras de Edith mostram duas questões: de um lado a consciência ecológica e, de outro, as apropriações “duchampianas” que estão presentes na produção da artista ao transformar caixas de remédios, recontextualizando e ressignificando esse material no território da arte. Essas embalagens farmacêuticas são dispostas e agrupadas sequencialmente para construir uma linguagem artística concreta e, ao mesmo tempo, minimalista onde podemos observar um enorme poder de síntese. Trata-se de um procedimento obsessivo e sistemático que dá origem a singulares composições e texturas de grande expressividade. A utilização de embalagens farmacêuticas no processo criativo não é algo novo, estando presentes nas obras de outros artistas contemporâneos, como Damien Hirst.
Obras desta mostra já estiveram presentes em dezenas de exposições e renderam importantes prêmios para a artista, dentre eles: 1º Lugar no VIII Prêmio Arthur Bispo do Rosário em 2018, 1º Lugar na 44ª Anual da FAAP em 2012, 1º Lugar em Pintura e 3º Lugar em Escultura no VI Prêmio Arthur Bispo do Rosário em 2011, Medalha de Ouro no XXXIII Salão Contemporâneo de Franca em 2009.
Seus trabalhos abordam questões existenciais, vida e morte. Os medicamentos têm como objetivo curar, salvar e prolongar vidas. Nessas obras, são as próprias embalagens de remédios que são imortalizadas mediante a arte. São obras que apresentam uma boa dose de mistério. Obras que nascem restritas ao pensamento autoral e, a partir do contato com o público, seus sentidos e significados são ampliados e multiplicados mediante novas visões e leituras do espectador.
Estamos diante de uma trajetória de sólida raiz iconográfica que modificou e ressignificou a vida da artista.

Waldo Bravo
Artista-curador e Orientador

 

 


Pintura Orgânica

Na sua primeira exposição individual, a artista Amalia Lisboa apresenta pinturas de teor orgânico, onde se destaca a relação figura e fundo dos diferentes campos pictóricos.
Suas obras são constituídas por territórios coloridos, planos e sensações de profundidade, criados a partir das transparências cromáticas.
São manchas expressivas de grande fluidez, às vezes de forma nítida, e outras vezes semi-encobertas por outras camadas de tinta, num provocativo jogo de apagamento e sedução construído a partir dessas sobreposições.
Seu processo criativo incorpora a acomodação espontânea dos pigmentos líquidos, por nivelação horizontal na superfície da tela.
A artista constrói tensões cromáticas e territoriais entre os espaços saturados, em contraponto aos espaços vazios, o que constitui fator determinante no valor expressivo das cores e das tonalidades definidas na sua relação lado a lado.
Amalia brinca com a cor e com o espaço, criando campos de variados formatos e relações cromáticas, para alcançar um resultado livre e selvagem.
Mediante manchas vigorosas, exprime na tela suas emoções, construindo tensões entre espaços ocupados e espaços vazios.
Um território sensível, repleto de planos, profundidade, luz e sombra.
São pinturas expressivas, vibrantes, vigorosas e repletas de sensualidade cromática.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 


Elementais da Natureza

Nesta sua primeira exposição individual, Anna Paes apresenta metáforas visuais da natureza, recriando a floresta e seus habitantes mediante poéticas visuais de um imaginário simbólico. Trata-se de recriações de um universo fantástico repleto de seres mágicos. Animais e plantas que expressam os gritos da natureza.
Essas obras apresentam uma linguagem híbrida entre desenhos tribais, o mundo das tatuagens e representações gráficas contemporâneas.
São desenhos resultantes de traços finos, delicados e cuidadosos que vão surgindo na superfície do papel, dando lugar a uma composição informal e inusitada, em que espaços saturados coexistem harmoniosamente com grandes espaços vazios. Espaços em que as repetições dos preenchimentos gráficos se condensam em territórios construídos em oposição à delicadeza das linhas submersas em outros pontos da composição.
Tal qual um refinado bordado, os desenhos da artista são “costurados” silenciosamente durante o processo criativo.
Na trajetória gráfica de Anna, acontece uma mudança estrutural da maior complexidade. Momento esse em que a artista desmembra o desenho em planos e camadas, adicionando a eles a profundidade. Profundidade que consiste da transformação do bidimensional em tridimensional, obtendo nessa passagem de uma dimensão para outra uma espécie de plenitude espacial.
Seu processo criativo distribui o desenho em diversos planos e materiais translúcidos para construir camadas leves. Esse processo recorre a veladuras de “efeito neblina”, a linhas sutis desfocadas e dissolvidas que suavizam os fragmentos de desenho submersos nas camadas anteriores.
Ao olhar através dos planos de certas obras e movimentando-se diante eles, o observador provocará uma interação visual de um plano com outro desestruturando e reestruturando o desenho formal ao caminhar.
Desse modo, Anna provoca uma abertura dos sentidos do espectador, na medida em que condiciona um olhar mais atento de sua parte, ao mesmo tempo em que põe em evidência uma das linguagens contemporâneas de grandes possibilidades experimentais.
Cada obra desta valiosa exposição possui uma estrutura gráfica única e surpreendente na apresentação da sua metáfora visual.
Nas suas pesquisas, Anna trilha um caminho muito pessoal, de grande expressividade e impregnado de unidade estética. Seguramente, uma demonstração contundente de qualidade, linearidade e coerência narrativa.
Definitivamente, estamos diante de um vigoroso conjunto de desenhos contemporâneos de sólida integridade conceitual e produzidos por uma artista que revela uma fecunda expressão criativa em sua nítida ascensão.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 




Arte-ludens de
Patricia Kaufmann


Faz parte da natureza humana a ação de brincar, é um componente instintivo da nossa estrutura interior. Fazemos isso durante toda nossa vida, desde criança até ficarmos velhos. A única coisa que muda é o tamanho e o valor dos brinquedos.
A relação com a contemporaneidade obriga-nos a atualizar permanentemente nossas brincadeiras.
No território da arte, essa ação de brincar é acima de tudo uma experiência lúdica mediante a qual o artista expressa a sua alegria de viver. A arte é o Playground privado onde os artistas criam para satisfazer seus delírios e necessidade de diversão.
Para alguns artistas a grande brincadeira é a desconstrução da realidade para em seguida ter a possibilidade de reconstruí-la a sua maneira, de forma lúdica. Outros vão além, resgatam os brinquedos da sua infância e os recontextualizam poeticamente no presente.
Nesse contexto situa-se o trabalho “Sombra Negra” de Patricia Kaufmann. A partir de uma atitude “duchampiana” a artista apropria-se da boneca Barbie e faz dela o objeto dos seus questionamentos.
Na tentativa poética de humanizar essa boneca, Patricia coloca-nos frente a um paradoxo visual. A imagem da silhueta da boneca por um lado oculta os detalhes e por outro lado a aproxima da condição humana. A artista cria uma ambiguidade visual para olhares apresados que podem confundir essa boneca com o corpo de uma mulher verdadeira, outorgando-lhe a imagem um realismo inexistente e instigante ao mesmo tempo.
Historicamente a representação da figura humana sempre utilizou o corpo real como referência. Isso não acontece na obra de Patricia. Precisamos lembrar que a boneca Barbie já é uma representação estilizada do corpo feminino, a qual é representada nas fotos de Patricia, ou seja, conceitualmente temos uma forma de representação (a fotografia) falando de outra forma de representação (a boneca Barbie). Ela não está falando do corpo feminino real.
São imagens inocentes, porém, repletas de sensualidade. Imagens poderosas na imaginação fértil do espectador que o fazem mergulhar no jogo de sedução.
Este ícone que marcou toda uma geração de meninas é um brinquedo aberto às transformações, projeções e desejos particulares das suas donas. É como um “avatar”, um outro corpo emprestado para você usar em uma vida paralela onde a palavra de ordem é a diversão.
No processo criativo da arte atual o que realmente importa, não é O QUE o artista faz, e sim, O COMO ele faz. Patricia criar brincando e ao mesmo tempo brinca trabalhando.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 


30ª Bienal de São Paulo

Com o nome de “A Iminência das Poéticas”, a 30ª Bienal de São Paulo apresenta quase três mil obras de 111 artistas do Brasil e do mundo.
A principal mostra de arte contemporânea do nosso continente se apresenta renovada e consistente. O curador venezuelano Luis Pérez-Oramas deixa claro que é possível fazer um bom trabalho, mesmo enfrentando adversidades.
A princípio, o objetivo da bienal é apresentar um amplo panorama da produção da arte atual no mundo. Essa produção é cada vez mais ampla e diversificada devido a derrubada das fronteiras entre os diversos territórios da cultura.
Embora saibamos que existem alguns territórios experimentais mais generosos e outros mais pobres e esgotados (como a pintura), alguns curadores optam por caminhos fáceis e tendenciosos, deixando-se levar pelas fartas produções.
É sempre um desafio garimpar bons trabalhos em territórios esgotados, contudo, tem suas recompensas. O curador Pérez-Oramas, consciente dessa questão, foi capaz de montar uma Bienal ampla e diversificada.
O aspecto mais interessante dessa edição é o fato de apresentar artistas e obras inéditas na sua maioria (cerca de 75%) que, na montagem, foram agrupadas por analogias de linguagens e temas. Há poucos artistas conhecidos pelo público. Essa diminuição de estrelas não afasta os visitantes, afirma o curador Pérez-Oramas.
Nessa edição, o público poderá ver uma importante retrospectiva individual com 348 peças do artista brasileiro Arthur Bispo do Rosário (1909 -1989), considerado pelo curador como um artista emblemático.
A Bienal traz uma novidade ao ocupar também diversos espaços da cidade, tais como a Capela do Morumbi e a Casa Modernista na Vila Mariana, extrapolando dessa forma os limites do parque Ibirapuera. Faz parte desse grupo o artista argentino Leandro Tartaglia, a americana Maryanne Amacher, a dupla Sergei Tcherepnin e Ei Arakawa, entre outros, que apresentam obras conceituais mediante intervenções sonoras.
Trata-se de uma Bienal correta e sem excessos, que apresenta um instigante e provocativo panorama da arte atual. Uma Bienal que resgata o prazer na convivência com a arte e, ao mesmo tempo, resgata seu prestígio com dignidade, posicionando-se como um dos eventos de arte contemporânea mais importantes do mundo.
A megaexposição montada nos 25 mil m² do pavilhão projetado por Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera, tem este ano um orçamento de R$ 22,4 milhões.
A 30ª Bienal de São Paulo abriu suas portas no dia 7 de setembro e fica em cartaz até o dia 9 de dezembro.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 




Apropriações e Aglutinações
de Anita Colli


É sempre gratificante ver quando uma artista mergulha de coração aberto no território experimental das artes à procura da sua identidade. Com esta experimentação, vem junto o exercício pleno da liberdade e, ao mesmo tempo, vem junto a possibilidade de atualizar e sintonizar os processos criativos autorais com nosso tempo, ou seja, trata-se do exercício pleno da mais pura contemporaneidade.
Nesse contexto, a artista Anita Colli vive um frutífero momento. Após passar por diferentes técnicas e linguagens, a artista alça novos vôos e chega aos procedimentos que têm como base as apropriações e as aglutinações. Este processo contínuo de apropriações e aglutinações de objetos permeia o processo criativo da artista nos últimos anos.
Conceitualmente, é importante destacar que a obra de Anita revela heranças “duchampianas” nessas construções criativas ao se apropriar de materiais descartáveis de laboratório para propor novos modelos estéticos. Esses materiais passam por uma desconstrução conceitual, procurando um esvaziamento dos seus significados literais para, em seguida, propor novas possibilidades mediante uma recontextualização cada vez mais poética, aberta e experimental.
No aspecto estrutural da obra de Anita também podemos perceber uma herança construtiva, uma opção pelo pensamento concreto e racional, com base na aglutinação de objetos multiplicados. Ao multiplicar a peça, multiplicam-se também seus sentidos e significados, propondo novas leituras e novos olhares.
A série dos anelídeos é um dos resultados do seu interesse pela produção tridimensional. São obras criadas e produzidas a partir de estruturas construtivas de fragmentos repetidos e organizados, procurando fluidez nas suas poéticas visuais.
A série das girolas é composta por estruturas suspensas, que lembram móbiles interativos. Neste momento, Anita dialoga no aspecto conceitual e não estético com Alexander Calder, o pai da arte aleatória conhecido por seus móbiles fantásticos. As construções de Anita incorporam movimento, provocado pelo sutil deslocamento do ar em volta dessas peças. São estruturas leves que oscilam suavemente.
Na série cirandas, Anita evidencia a questão participativa por parte do espectador, aproximando-o de sua obra. São objetos táteis que têm a sua forma aberta e mutável e, com a manipulação do espectador, oferecem múltiplas possibilidades e descobertas. Com esta série de arte participativa, Anita dialoga, no campo conceitual e não estético, com Lygia Clark, uma das pioneiras no território da interatividade. Anita incorpora o aspecto lúdico e interativo nestas obras ao criar estruturas maleáveis, flexíveis e cambiantes, frutos de uma mentalidade transformadora e aberta. Ela questiona a materialidade e a rigidez das suas estruturas e, ao incorporar linhas transversais com fios flexíveis interligando esses fragmentos, Anita quebra essa rigidez ao adicionar formas sinuosas e consegue fazer dobras, reestruturando o plano desses agrupamentos.
Na série de fotogravuras, Anita apresenta diversos estudos estéticos das múltiplas possibilidades de agrupamentos e composições. A artista nos propõe uma relação libertadora com a arte a partir da experimentação plena e transformadora do nosso cotidiano. Ao superar a barreira do território estético no campo da arte, Anita almeja atingir uma dimensão maior do espaço, desconstruindo e reformulando o vazio. Na sua sensível trajetória artística, Anita percorre um caminho construído com talento, coerência e uma personalidade singular.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 


Vestígios

Quem acompanha o percurso artístico de Margarida Gregori, se surpreende com o vigor das suas novas representações pictóricas e com a abrangência da sua narrativa poética no campo da abstração concreta.
Margarida expõe a expressão dos seus pensamentos, uma coreografia de representações no território da linguagem pictórica, que expressam o sublime nas composições, proporcionando ao espectador uma contemplação e uma percepção estética única nessas telas.
É o resultado da representação mental e da construção de ideias poéticas de uma fase que teve início em 2001. Margarida apresenta a síntese da sua trajetória em trabalhos que exprimem a procura pelo absoluto e pela superação permanente.
Nesse caminho trilhado pela artista, as indagações estéticas resultam da incorporação de experiências distintas na estrutura interna da sua linguagem.
A artista utiliza um processo criativo no qual, ao mesmo tempo em que nega e apaga camadas e gestos anteriores, ela promove um resgate sensível desses tempos passados. É como o trabalho do arqueólogo quando, ao escavar, vai re-descobrindo obras e criações pré-existentes. Nesta revelação, emergem fragmentos de representação daquilo não visível, pensamentos remotos e múltiplas sensações, na procura incessante dos vestígios da sua memória.
A imagem final reaparece no olhar do espectador como tênue lembrança existencial num diálogo poético com o tempo e a memória.
Suas obras permitem variadas leituras no vocabulário artístico e, ao mesmo tempo, promovem uma ampliação de sentidos e significados em torno das propostas autorais.
O processo criativo, nas telas de Margarida, amplia o campo físico da linha e do gesto na medida em que ela utiliza procedimentos antropofágicos e canibais ao se relacionar com referências iconográficas históricas ou atuais que ela assimila e incorpora na sua obra. Uma prática criativa que mistura história, técnicas e linguagens de forma mais ampla.
Nesse conjunto de trabalhos podemos identificar remetências e citações pontuais com as obras de artistas como Antoni Tapies, Sergio Fingerman e Marco Túlio Resende. Artistas que formam a base estrutural de referências na sua linguagem e pensamento atual. Ao mesmo tempo, podemos ver diálogos com as pinturas rupestres e com o grafitte urbano, inserindo nas telas vestígios e rastros de elementos de comunicação humana. Nesse contexto também são inseridas as fendas de Fontana como elo de ligação com suas fases anteriores.
O experimentalismo poético de Margarida a tem levado a transitar por linguagens sem dogmas, numa relação livre e de múltiplas possibilidades estéticas.
A materialidade na superfície das suas pinturas dialoga com a presença silenciosa das cores, das tonalidades e dos campos de força constituídos.
Nessa linguagem de abstração concreta, a artista articula composições de territórios monocromáticos em contraponto às estruturas irregulares de linhas e gestos representados no plano pictórico, onde a cor também se faz presente na superfície das telas, definindo zonas de plasticidade cromática.
A artista comanda um discurso poético, demonstrando domínio sobre a técnica apurada e conquistada naturalmente pela maturidade.
Margarida revela uma rica experiência vivencial representada em trabalhos equilibrados e sem excessos, desenvolvidos e lapidados ao longo de sua sensível trajetória de vida e arte.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 


Retrospectiva
Judith Lauand no MAM


Aos 88 anos, a “dama do concretismo” brasileiro ganha uma importante mostra retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Nascida no interior de São Paulo, em Pontal, ela desenvolveu a sua carreira artística na cidade de São Paulo, onde fez parte do Grupo Ruptura junto a importantes artistas como: Sacilotto, Charoux, Waldemar Cordeiro, Maurício Nogueira Lima e Fiaminghi.
A única mulher desse grupo revela coragem e ousadia singular ao lidar com a arte concreta nos anos 50, tempo em que as tradições e o conservadorismo ainda tinham uma presença marcante.
Sob o nome de “Experiências”, a exposição reúne mais de 100 obras dos anos 50 aos 70. São experiências feitas nesse período que incluem pinturas, desenhos, gravuras e aquarelas selecionadas cuidadosamente pelo curador Celso Fioravante.
Na herança concreta de Piet Mondrian, Judith brinca nesse território da abstração, da ração, da matemática, da rigidez nas composições geométricas, nas formas e nas linhas.
Trata-se de um recorte temporal da ampla produção da artista. Um recorte focado na produção mais relevante da sua trajetória.
A mostra atual constitui-se numa importante referência histórica da arte brasileira desse período e, ao mesmo tempo, é uma importante referência para o entendimento e estudo de boa parte da arte atual, que tem a sua origem na tradição concreta.
A sua importante trajetória e suas contribuições artísticas garantem-lhe um lugar de destaque na história da arte brasileira; o que justifica essa merecida evidência na atualidade.
Judith Lauand atualmente reside e trabalha em São Paulo.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 


29ª Bienal de Arte

O maior evento de artes do continente retoma suas atividades com vigor e competência, após a profunda frustração deixada pela “Bienal do Vazio” no cenário artístico em 2008.
A edição atual, intitulada “Há Sempre Um Copo de Mar para o Homem Navegar” (Jorge de Lima), propõe discutir a relação entre Arte e Política. Ela foi concebida pela dupla de curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos.
A mostra é formada por cerca de 850 obras de 159 artistas. Embora democrática nos gêneros apresentados, há uma predominância de fotografias e vídeos. A produção artística Brasileira está em destaque, representando um terço da mostra.
Além do espaço para as obras, essa Bienal tem seis “terreiros”, que são lugares destinados à convivência, reflexão, criação e descanso do público visitante. São eles: “O Outro, O Mesmo”, “A Pele do Invisível”, “Dito, Não Dito, Interdito”, “Eu Sou a Rua”, “Longe Daqui Aqui Mesmo” e “Lembrança e Esquecimento”.
Como não podia deixar de acontecer, esta edição também tem obras polêmicas. É o caso do artista Gil Vicente, que mostra, em desenhos, ele mesmo matando algumas personalidades internacionais, incluindo o presidente Lula.
A questão mais chocante dessa história é o fato de que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tenta censurar essas obras por considerá-las uma incitação à violência. É um absurdo que se fale em censura. Basta uma recomendação classificatória de faixas etárias, como acontece na TV e no cinema.
Entretanto, eu vejo nesses desenhos uma outra questão polêmica que merece maior atenção do que a anterior: a utilização de procedimentos de representação clássica e acadêmica nessas obras, inseridas dentro de uma Bienal de arte contemporânea, a qual, teoricamente, pressupõe a busca e o mapeamento das vanguardas artísticas e dos novos rumos da arte.
Conheço e acompanho com respeito o trabalho de Gil Vicente há muitos anos. Entretanto, eu vejo nessas obras apenas um grande poder de sedução por parte do autor em relação ao tema proposto: arte e política. Não vejo nelas relevância contemporânea.
Essa abordagem acadêmica confunde ainda mais a cabeça do público, que procura entender e desvendar os mistérios da nossa complexa arte atual. Encontramos mais dúvidas do que certezas.
A relevância da arte contemporânea não está nos temas e sim nos processos criativos utilizados para representar esses temas, ou seja, o que realmente importa para a arte não é “o que”, mas sim “como”.
O tema sedutor pode virar uma perigosa barreira e impedir ao autor de se manifestar como artista.
Polêmica a parte, trata-se de uma Bienal generosa, democrática e altamente estimulante para quem acompanha arte atual. Imperdível!!

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 



38 Salão de Arte
de Santo André


A 38ª edição do Salão de Arte Contemporânea de Santo André reafirma, a cada ano, a sua importância dentro do cenário da arte brasileira. Ele funciona como um espelho refletindo a produção de arte da atualidade.
Como Membro da Comissão de Seleção e Premiação desse Salão, desejo parabenizar a Prefeitura de Santo André, que, mediante seu Departamento de Cultura e a sua Comissão Organizadora, demonstrou o respeito aos habitantes da sua cidade através da manutenção deste importante salão.
Para podermos analisar e selecionar adequadamente arte contemporânea é necessário observar, em primeiro lugar, o contexto atual da arte – onde temos obras de caráter híbrido, transculturais, multifacéticas, interdisciplinares, multidisciplinares, multimídicas, antropofágicas, contaminadas, multiterritoriais etc. Ou seja, o mix-tudo ou mix-total.
A noção de fronteira entre as diferentes formas culturais desapareceu ou diluiu-se a tal ponto que é impossível compreender o estágio atual da arte sem essa consciência, à qual torna-se obrigatória uma visão contemporânea múltipla, aliada a um pensamento contemporâneo múltiplo.
Analisar e selecionar arte representativa nesse contexto da arte atual não é tarefa fácil. Ainda mais quando observamos a complexidade do momento na arte contemporânea somado ao elevado número de inscrições nesse salão.
Nosso olhar ficou concentrado na procura de obras com conceitos bem resolvidos, processos criativos bem elaborados, pesquisa de linguagens, arte experimental, boas técnicas, criatividade, poesia visual, riqueza de metáforas, pesquisa de materiais etc. A idéia é reconhecer o valor do trabalho.
Tivemos que identificar e separar o joio do trigo. Separar obras relevantes misturadas no meio de trabalhos de principiantes, modismos de mercado, fórmulas decorativas, arte acadêmica, plágios, autores ingênuos, mal informados, etc.
Porém, nem tudo aquilo que é recusado é por falta de qualidade. O espaço expositivo tem limitações de montagem, o qual nos obriga a fazer cortes indesejados.
O salão oferece oportunidades democráticas, onde não se fazem exigências curriculares aos inscritos. Dessa forma, artistas com trajetória, artistas emergentes, mestres e alunos têm as mesmas oportunidades.
Os salões, de modo geral, funcionam como laboratórios de pesquisa para mapear os caminhos contemporâneos da esgotada arte atual.
Aqui encontramos artistas que dão valor à pesquisa permanente como procedimento de trabalho, porque eles têm consciência de que através dessa pesquisa a arte se atualiza, se recicla, se sintoniza no tempo e permite-lhes exercitar diariamente o contato com a liberdade.
Alguns artistas selecionados nesta edição revelam fortes indícios de um futuro promissor. Vamos aguardar… O tempo irá dizer.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 


Sonha-me tua

Bia Black vive um intenso momento de reflexão interior, de autoconhecimento e depuração do seu processo criativo.
No presente, Hilda Hilst está no centro dos seus questionamentos, transformada no seu espelho, espelho de vida. A obra de Bia nutre-se dessa relação ao retirar boa parte da energia vital que estimulam suas criações… “Viver, é desenhar sem borracha”.
A polêmica escritora Hilda Hilst (1930 – 2004) expunha livremente seus ideais e pensamentos, tratando de forma nua e crua temas como o erotismo e a pornografia. Entretanto, percebe-se que esses temas são tratados apenas como meios para falar de coisas mais transcendentais tais como Deus, sentimentos, especialmente sobre o amor e sobre a vida que subsiste através do amor. Ela questiona os mistérios da vida, fala de pessoas, do complexo mundo em que vivemos e do existencialismo. Em síntese, fala da complexidade da alma humana e de seus relacionamentos.
No seu processo criativo, Bia se apropria de frases ou palavras de Hilda, com as quais se identifica, que refletem o que sente naquele momento, para logo inseri-las no seu trabalho.
As palavras surgem na tela como gestos pictóricos, às vezes de forma nítida, e outras vezes semi-encobertas por outras camadas de tinta, num provocativo jogo de apagamento e sedução construído a partir dessas sobreposições.
As obras de Bia são o resultado de uma longa relação com a pintura. Desde seu início, a cor sempre esteve no centro das suas pesquisas de uma forma muito intensa, e nesse atual momento de síntese, a cor adquire valor e importância ainda maior.
Suas obras são constituídas por territórios coloridos, construindo planos e sensações de profundidade a partir das transparências cromáticas.
Em alguns momentos, seus territórios ou campos coloridos recebem a influência de Mark Rothko, do expressionismo abstrato, um dos artistas mais importantes do século XX. Em outros momentos, ao elaborar seus conteúdos fragmentados a partir das bordas e laterais da tela, surgem diálogos pontuais com a obra de Frank Stela, o eclético artista contemporâneo dos Estados Unidos.
As pinceladas vigorosas registram toda a gestualidade do seu processo criativo nesse momento. São gestos expressivos de grande fluidez expressados mediante cor, às vezes em obras quase monocromáticas.
Bia constrói tensões cromáticas e territoriais entre os espaços saturados em contraponto aos espaços vazios, o que constitui fator determinante no valor expressivo das cores e das tonalidades definidas na sua relação lado a lado.
Num rico jogo de instabilidade e desequilíbrio, Bia brinca com a luz, com a sombra, com a cor e o com espaço, criando campos de variados formatos e relações cromáticas, geradas mediante sobreposição de camadas pictóricas.
Nesse território bi-dimensional, a artista se expressa com muita personalidade, revelando seu amplo domínio, tanto na cor quanto no gesto, transitando ambiguamente entre o território emocional e o racional.
As pinturas de Bia vão muito além das relações cromáticas e construtivas que caracterizam seu presente momento. Ela mergulha fundo no território sensível da sua espiritualidade, traduzindo intensamente toda a sua maturidade.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador


 




Trans-formação:
a linguagem poética do movimento

Quando recebi o convite para orientar e acompanhar o processo criativo da artista Fabí Mello, vi na ocasião uma rica oportunidade para investigar os caminhos contemporâneos da arte cinética.
Quando falamos em arte cinética, estamos falando da arte que incorpora a idéia de movimento, não como uma obra de arte que representa o movimento e sim como uma obra que contém movimento ou está em movimento, transformando-se em um objeto móvel.
Conceitualmente, o princípio de estruturação da arte cinética está diretamente ligado ao movimento, opondo-se à condição estática da arte tradicional, como é o caso da pintura e da escultura.
Esse campo da arte é constituído de trabalhos que exploram as possibilidades de transformação visual, de forma óptica ou física, evidenciados por atitudes posicionais do observador ou a partir de uma ação manipuladora.
A exposição “Le mouvement”, de 1955, é considerada como a primeira Mostra de Arte Cinética da história, realizada na galeria Denise René, de Paris.
Nesse domínio, destacam-se artistas como Marcel Duchamp, Alexander Calder, Vasarely, Jesus Soto, Yaacov Agam, Jean Tinguely e Pol Bury, entre outros. Alguns historiadores tendem a incluir no território cinético obras da Op-Art (arte óptica), tais como Julio Le Parc, Luis Tomasello e Carlos Cruz-Diez.
Aqui no Brasil, o pioneiro nessa linguagem foi o artista Abraham Palatnik. No ano 1999, o Itaú cultural realizou uma importante mostra de arte cinética denominada “Técnica – Cotidiano / Arte”, na qual se procurou fazer um mapeamento histórico desse movimento no Brasil. Nessa exposição estavam presentes obras de Palatnik junto a obras de outros importantes artistas, como Carlos Fajardo, Guto Lacaz, João Wesley, Marcelo Niesche, Márcia X, Pedro Paulo Domingues, Sérvulo Esmeraldo, Waldemar Cordeiro, entre outros.
Nos últimos anos, Fabí Mello tem pesquisado as diversas possibilidades de representação de campos cromáticos junto aos procedimentos de transformação de imagens.
A obra do expressionista abstrato Mark Rothko – um dos artistas mais importantes do século XX – surge nas suas pesquisas como um poderoso estímulo.
Fabí se apropria dos famosos campos de cores de Rothko para fazer leituras próprias. Nesse momento, a artista exercita uma antropofagia criativa: a arte se alimentando da própria arte, a representação tendo como base outra representação.
As apropriações nos moldes Duchampianos, tais como Fabí as realiza, são uma vertente explorada por diversos artistas na pós-modernidade.
Fabí Mello estabelece um diálogo com Mark Rothko, utilizando a sua obra para explorar as possibilidades visuais do movimento e experimentar as suas transformações cinéticas. O foco da artista está na forma, no processo de transformação e reconstrução poética dos campos de cores que se “autoconstroem” e logo se “autodestroem”.
O fio condutor no seu atual processo criativo é a idéia de metamorfose. Para Fabí Mello, “a vida é flexibilidade, transformação e movimento”.
A artista utiliza estruturas cinéticas que se transformam, que se movem e surpreendem, produzindo ricos efeitos mutáveis fundamentados nas alterações perceptivas, construídas a partir da variação da posição do observador diante da obra e da ação da luz na sua superfície.
As experiências e pesquisas cinéticas de Fabí Mello incluem os happenings, entrando no território da arte sensorial auditiva e tátil com obras lúdicas e jogos interativos.
Fabí Mello questiona o que é real, brinca com a impermanência dos estados da matéria através de obras consistentes, construídas mediante uma expressiva poesia visual.
Ela é uma artista multidisciplinar que utiliza diversos meios e suportes. Ao mesmo tempo revela grande capacidade de planejar e dominar seu processo criativo nesse estimulante território da poética do movimento.
Ao observador, cabe contemplar o movimento das assemblages cinéticas que parecem estar vivas e o movimento das recriações em vídeo, nos quais ela acrescenta elementos em movimento real nos campos bidimencionais do Rothko, colocando-os em outra dimensão.
Criadora de novos alfabetos, Fabí Mello trabalha com determinação e coragem, produzindo obras rítmicas nesse singular território, conseguindo, dessa forma, resultados que provocam curiosidade, mistério e surpresa.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador

 

 


Sinfonia cromática de
Vicencia Gonsales


Vivemos num tempo de intensa contaminação visual, provenientes de imagens da televisão, internet, cinema, propaganda exterior, mídia impressa, etc. etc.
Trata-se de um bombardeio de imagens sem precedente na história da humanidade, que está transformando a nossa visão e a deixando adormecida. Centenas de milhares de imagens passam velozmente frente a nossos olhos diariamente. Quase não temos tempo para a contemplação de uma pintura, a qual exige uma atitude mais demorada, uma apreciação sutil e sensível ao mesmo tempo.
Na grande maioria dos eventos de arte contemporânea há pouco espaço para obras bidimensionais, com exceção à fotografia. Nesse atual contexto, embora predomine a sedução dos novos meios, ainda é possível afirmar: a pintura continua viva!
Temos ótimos pintores na atualidade espalhados pelo mundo, embora poucos com relevância e qualidade. Aqui no Brasil podemos destacar: Paulo Pasta, Adriana Varejão, Emmanuel Nassar, Beatriz Milhases, Daniel Senise entre outros.
O território da pintura é altamente explorado, portanto não é nada fácil acrescentar algo novo. Entretanto, de tempos em tempos, surgem instigantes revelações como é o caso da artista Vicencia Gonsales.
O atual conjunto de trabalhos de Vicencia foi desenvolvido gradativamente a partir das suas fases anteriores, onde experimentou a figuração informal, e posteriormente, nas suas pesquisas, explorou as possibilidades das monotipias e dos desenhos extraídos de suas superfícies.
Nesse processo de sólida raiz, a artista extraiu o desenho da pintura. Separadamente, esse desenho foi aprimorado enquanto linguagem e logo inserido novamente na pintura, de forma equilibrada e em perfeita harmonia.
As obras de Vicencia transitam entre a pintura, a colagem e o desenho. Ela pinta desenhando e dialogando com tecidos estampados, integrando-os na superfície da tela, recriando e prolongando o conteúdo dessas estampas mediante pintura e desenho.
A artista utiliza um processo criativo que incorpora o múltiplo e o heterogêneo. É uma expansão da pintura ao tratar da colagem, do desenho, da costura e da adição de metais na superfície da tela. Tudo isso traz mudanças radicais ao seu modo de pintar.
Nesse processo, é possível identificar alguns elementos que compõem seu repertório: por um lado, os provenientes das estampas e dos tecidos colados, tais como flores, fazem referências a pop-art e ao tropicalismo. Por outro lado, podemos identificar os elementos provenientes da ação criativa da artista, expressada mediante linhas e rendas gráficas intuitivas e arabescos, que referenciam o movimento art déco, o carnaval e os diálogos pontuais com a obra de Beatriz Milhases. Em conjunto, todos esses elementos que caracterizam sua atual produção remetem a questões relativas à abstração concreta e neoconcreta.
A técnica mista utilizada tem por base a colagem, através da qual a artista alcança uma rica diversidade, criando um vocabulário de impacto pictórico e confrontos entre o desenho e a colagem, conseguindo um resultado pessoal e corajoso, fruto dessa harmonia de excessos.
De certa forma, ao se apropriar dos desenhos já contidos nesses tecidos estampados, conceitualmente Vicencia revela heranças “Duchampianas” nessas colagens. Surge aí um diálogo entre o desenho impresso e o desenho representado. Ou seja, uma representação dialogando com outra representação, e não com o mundo real. Surge aqui a utilização da metalinguagem ao introduzir uma estampa pronta na pintura e não uma estampa representada.
Na obra de Vicencia, a questão do desenho e da linha é um elemento estrutural predominante, é seu território simbólico, em que se manifesta toda a sua personalidade. Essas linhas dialogam com os tecidos estampados e com os espaços cromáticos, outorgando a esses elementos que compõem a pintura, pesos e valores visuais diferenciados.
São essas linhas emaranhadas de teor orgânico que modificam a percepção da pintura saturada da artista, as quais conduzem nosso olhar pela superfície da pintura ao transitar entre diversos territórios e fronteiras dissolvidas pela intervenção integradora do desenho, inserindo profundidade na tela e aumentando a força dos seus campos cromáticos.
A frescura e a complexidade das suas composições no processo pictórico dão inicio à formulação das próprias teorias visuais da artista, levando-nos a um imaginário singular, de pinturas assumidamente belas e muito expressivas, que retém o nosso olhar.
Embora nas pinturas de Vicencia vejamos uma aparente ambiguidade entre o território emocional e o racional, plasticamente o que acaba prevalecendo de modo geral no campo da representação, são as composições líricas emotivas, nas quais os procedimentos híbridos estão ganhando espaço e corpo na atualidade.
A pintura de Vicencia não tem nada de dócil. Ao contrário, é selvagem ao extremo. E é justamente essa característica que torna sua obra atraente ao nosso olhar.
Nesse momento experimental do desenho, surgiram outras vertentes e possibilidades em torno do espaço e da arquitetura.
Nas suas obras de intervenção arquitetônica, ela coloca em discussão as fronteiras da pintura e o lugar da arte a partir do momento em que extrapola os limites tradicionais do suporte da tela, prolongando seu desenho para as paredes, que acabam sendo incorporadas à sua obra na forma de suporte, transformando-se no campo de representação das suas ideias.
Aqui se discutem questões muito pertinentes à arte contemporânea: a expansão territorial, a limitação dos suportes tradicionais, a efemeridade da obra, a ação e a intervenção da artista no espaço real da arquitetura.
Nesse momento, Vicencia abre mão de algo precioso para muitos pintores: a autonomia da arte. Trata-se de um mergulho no território das instalações, as quais utilizam o espaço arquitetônico como suporte, passando a depender dele.
Em síntese, são pinturas altamente sedutoras, que chamam atenção por levar nosso olhar diretamente à intenção da artista: a procura constante da liberdade.
O ineditismo das obras da artista a colocam junto a um seleto grupo de pintores que deram novas soluções ao dilema conceitual da representação. Nesse momento, vemos toda a afirmação autoral na superfície da tela, destacando assim, sua ação fundamental como pintora.
O atual momento pictórico de Vicencia Gonsales constitui sua melhor fase do seu percurso histórico. Vale a pena não perder de vista os novos caminhos a percorrer pela artista no campo da pintura!
“ Caminante no hay camino, se hace camino al andar”.

Waldo Bravo
Artista-curador e arte-educador




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