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EXPOSIÇÃO
“Diálogos com Tarsila
 
julho de 2006 - Cultural Blue Life – São Paulo

Modernismo é objeto de reflexão
Treze artistas contemporâneos discutem obras de Tarsila do Amaral


Usar a arte como tema de discussão da própria arte em diferentes movimentos, revelam paradigmas conceituais atuais, expressos individualmente aos olhos de quem faz a releitura. Discutir obras do ícone da modernidade, Tarsila do Amaral, é o que propõe a próxima exposição – Diálogos com Tarsila - que será realizada no Cultural Blue Life dia 06 de julho, por treze artistas contemporâneos: Antonio Uemir, Amaryllis Norcia, Anna Donadio, Araci T. Ishida, Bia Black, Eleanor Aidar, Helena Falconi, Jaqueline Comazzi, Leilah Costa, Nina Arbex, Suzana Garcia, Yeda Sandoval e Walter Gini.

Através de releituras de obras de Tarsila, os artistas criarão discursos visuais numa mostra de técnicas diversas: tecidos, poliestireno, cerâmica, pedras, serragem, alumínio, EVA, fotografia – uma exposição diversificada, cheia de sentidos e significados. Três recortes de seda pura – “Paisagens revisitadas” de Nina Arbex - sobrepostos funcionarão como um vitral de três metros de altura, pois permitirão a visão do mesmo número de obras contemporâneas ao mesmo tempo, baseadas no modernismo. “A Negra” foi inspiração para Bia Black na obra “Nutriz”, uma peça tridimensional transformada num único signo, nos revela aspirações afetivas muito fortes, já que ambas foram baseadas nos seios de negras escravas que amamentavam seus filhos.

“ Tarsila do Amaral foi uma das percussoras da Semana de 22, numa ruptura vanguardista foi responsável por um outro momento da arte, oferecendo um novo rumo para a arte brasileira”, revela Lílian Heitor, diretora do Espaço Cultural Blue Life. “Essa releitura trata-se também de uma homenagem a essa grande mulher que tanto colaborou para a cultura do país”, completa.

Embora o uso temático seja baseado em releituras do modernismo apropriadas para a época atual, é permitido através das obras outras investigações de uso estético e conceitual mais contemporâneo, isto é o que prometem na mostra os artistas do grupo Contempoarte que estarão em evidência no Cultural Blue Life.


TEXTO DE APRESENTAÇÃO

Tarsila Canibalizada

A obra da pintora Tarsila do Amaral é o objeto de reflexão estética da presente exposição de treze artistas contemporâneos no espaço cultural Blue Life.
Por meio de uma grande diversidade de suportes e de linguagens, esses artistas relêem - comentando, citando, transcrevendo, traduzindo, transcodificando, parafraseando, parodiando, interpretando e ressignificando - a obra da grande modernista brasileira.

Tal como os próprios artistas, o tema dessa exposição é fundamentalmente contemporâneo, já que tomar a obra de arte como objeto de discurso da própria arte é característica definidora da pós-modernidade.

De fato, a arte contemporânea, como assinala Ricardo Fabrini, não é mais destinada ao prazer do olhar nem se caracteriza pela presença. Outrossim, ela consiste de um “comentário da arte” e se destina à reflexão.

São estes os artistas e as suas exegeses das obras de Tarsila do Amaral:
Amaryllis Norcia trabalha com a obra Floresta da pintora da Antropofagia. Uma grande palmeira de tecido, repleta de pequenos objetos de bordar e tecer, de uso doméstico, comuns ao labor feminino diário, constitui a obra com que Amaryllis discute com Tarsila. À uma obra composta de significantes solipsistas, Amaryllis opõe uma enorme profusão de conteúdos, à unidade opõe o múltiplo, à ordem racionalizada opõe a flexibilidade da subjetividade e da afetividade. O ensinamento que esse diálogo revela, por antinomia, é o de que a obra de Tarsila é uma obra majoritariamente constituída de formas estruturais, de invariantes lógicos, embora nem sempre óbvios.

Antonio Uemir atua sobre Operários de Tarsila. Sua obra consiste de 17 máscaras cerâmicas brancas, aplicadas simetricamente sobre um painel negro de 1.70x0.60m. Pintura da fase mais politizada de Tarsila, Operários consiste da apresentação da pluralidade racial brasileira, submetida e unificada pelos imperativos da industrialização nascente. Na transcrição de Antonio, essa uniformização é levada às últimas conseqüências, ao passo que os olhos dos operários - tão tristes no original - ganham luminosidade. Trata-se de uma visão de mundo social fundamentalmente diversa daquela da pintora. Contextualizar historicamente essa diversidade é entender melhor as transformações da arte.

Anna Donadio escolhe Antropofagia como objeto de sua poética visual. Fotógrafa de corpos nus, Anna destaca o grande seio dos corpos entrelaçados da obra de Tarsila e o amplia. Ela parece querer mostrar de perto a pele do signo tarsiliano para revelar a vida cultural e histórica que dele transpira. Para o fazer, ela decodifica a imagem pictórica e a recodifica noutra linguagem: a da fotografia digitalizada. Esse processo consiste numa apropriação verdadeiramente canibalesca da obra antropofágica.

Araci Ishida homenageia Tarsila parafraseando sua obra O Ovo. Com um painel púrpura - tal como a serpente que envolve o ovo da pintura de Tarsila - sobre o qual se encontram dezenas de ovos cerâmicos brancos, Araci confere um estatuto hiperbólico ao signo tarsiliano. Ao fazê-lo, ela suscita um olhar incisivo sobre a obra que comenta, revelando o desejo de volumetria que a pintura quase não consegue conter dentro dos seus limites.

Bia Black envolve-se com A Negra. A obra que resulta desse envolvimento afetivo, indignado (com a revelação da prática de alongamento dos seios das escravas para usá-los nas costas, amamentando enquanto trabalhavam), é um enorme seio marrom pendente do teto da sala da exposição. Emblemática da obra de Tarsila, A Negra é convertida por Bia num único e volumoso signo. O caráter social e crítico da obra da pintora é aqui apreendido e metafraseado pela apresentação do signo máximo da sujeição e da secção bestiais do corpo feminino escravo.

Eleanor Aidar inspira-se em O Mamoeiro, O Pescador e em A Lua para as pinturas que apresenta nessa exposição. Ela seleciona preferencialmente as formas circulares do vocabulário tarsiliano para a elaboração do seu trabalho, embora profundamente estioladas e espargidas. Partilhando com Tarsila a linguagem da pintura, a estética de Eleanor, no entanto, lhe é em tudo contrastante e, por essa razão, sua tradução da obra daquela é eminentemente metafórica.

Helena Falconi toma O Sono por objeto de trabalho. Selecionando um grupo de signos idênticos do quadro da pintora, Helena o reconstrói em E.v.a (placas de borracha), unidade por unidade, da exata forma e cor originais e o expõe suspenso no ar por fios de nylon transparentes. Tudo se passa como se a série pintada fosse extraída da tela e exposta fora dela. É assim que Helena se apropria da obra de Tarsila: transcrevendo-a em linguagem tridimensional.

Jaqueline Comazzi comenta O Touro, obra da fase “Pau-Brasil Metafísico-onírica”** de Tarsila. Um portentoso par de chifres de granito negro, adejado por dois círculos de mármore branco, pendentes do teto da sala de exposições. Eis como Jaqueline ressignifica plasticamente - na tridimensionalidade - a força e o poder do signo central que ela extrai da narrativa de Tarsila. Investindo-o de volumosa e pesada massa negra de granito, ela recodifica a sua força noutro suporte. Expondo-o suspenso no centro de um entorno vazio, onde reina solitário, ela recodifica o significado do seu poder. Assim, Jaqueline mostra poeticamente o modo como a arte de hoje trabalha conceitos altamente abstratos.

Leilah Costa constrói o seu trabalho sobre Antropofagia. Trata-se literalmente de uma construção, na medida em que primeiramente, Leilah desconstitui digitalmente a figura principal da obra em números e letras, para depois a reconstituir em tela como um conjunto de unidades de escrita. É, portanto, dupla a obra exposta por Leilah. Enquanto processo, ela expõe a animação digital em que desconstrói a imagem.

Enquanto produto, expõe a tela em que a reconstrói a partir dos fragmentos da animação. É notável a pedagogia da exposição do confronto entre a linguagem pictórica e a digital e entre os suportes do computador e da tela: ambos figurando, ao mesmo tempo e alternativamente, como meios e fins, sem nenhuma relação hierárquica.

Nina Arbex trabalha sobre as obras E.F.C.B, A Feira I e Palmeiras. Expondo três transparências em seda, com 3.00 x 0.70m cada, Nina transcreve para as suas, todo o impacto das cores das obras matrizes. Citando, traduzindo e comentando temas enfaticamente verticalizados e marcados por contornos consistentes, as enormes transparências de Nina - quais grandes vitrais voláteis - servem-se da cor de modo muito diverso da pintora do movimento antropofágico. Enquanto em Tarsila a cor emblematiza a especificidade da nossa diferença cultural, em Nina ela revela uma tragicidade hierática e subjetiva. Nesse sentido, não obstante as citações, o discurso visual das suas transparências é sobretudo metafórico. Ele empresta certos termos da obra matriz, mas os reorganiza segundo uma sintaxe completamente diversa, embora possa parecer o oposto.

Suzana Garcia atua diretamente sobre as pinturas de Tarsila, re-expondo-as em reprodução plotada. É sobre as próprias imagens criadas pela pintora que ela realiza a sua interferência e impõe a sua marca técnico-estética. Canibalizando assim a obra sobre a qual opera, Suzana redefine os conceitos de autoria, originalidade, pintura e fotografia. Com esse procedimento transgressor e iconoclasta, Suzana, no entanto, atualiza, revigora e confere vida nova às obras-suporte. As marcas indeléveis da releitura inscritas sobre elas próprias, constituem a mais cabal evidência da sua atualidade.

Walter Gini estuda A Negra. Sua reflexão destaca o caráter paradigmático da obra na história das artes plásticas no Brasil, desde Di Cavalcanti, Portinari, Volpi, entre outros. É toda essa tradição que ele parodia com o seu estudo: uma cadeira de braços em cujo encosto está pintada a imagem de A Negra. Assim, uma vez sentado na cadeira, o espectador encontra-se no seu próprio colo. A obra de Walter pode, de fato, inscrever-se na tradição que bem humoradamente cita e comenta, na medida em que não apenas confere visibilidade a nossa constituição cultural negra - como se faz desde Tarsila - como especifica a sua natureza maternal: colo e seio.

Yeda Sandoval interpela o Abaporu. Expondo em chapa sintética rígida, recurvada sobre as linhas de corte do desenho do próprio Abaporu (com 1.70 m de largura por 0.60m de diâmetro), cuja figura salta do tubo, vencendo a resistência do próprio material, Yeda inscreve na chapa o signo máximo da obra tarsiliana. Essa inscrição, espécie de incisão na rigidez do material, parece desejar perenizar no espaço essa imagem já perenizada no tempo, oferecendo-lhe um suporte tão duradouro quanto ela própria.

Nas obras desses treze artistas há muitas lições a extrair. A primeira delas é a de que o confronto estabelecido nessa exposição é, antes de tudo, um confronto entre paradigmas diversos da arte. São eles que permitem compreender o choque imediato causado pela observação de que a obra de Tarsila esteve completamente envolvida com o domínio social, cultural e político, enquanto as suas leituras atuais parecem completamente desengajadas.

É porque ambos os paradigmas são historicamente condicionados que as questões da arte de hoje são, por um lado, mais globais do que locais e, por outro, mais de linguagem da própria arte do que de questões externas a ela.

Mas não é só o desengajamento nível semântico relativo ao fim das grandes narrativas ideológicas que se evidencia aqui. Outra lição a extrair dessa exposição é a da ampliação ilimitada das formas de discurso e expressão da arte contemporânea. Assemblages, tridimensionais, objetos, instalações, fotografias digitais, interferências, apropriações, artemídia integram a enorme profusão de linguagens, suportes e sua hibridação.

Finalmente a lição mais importante - nível sintático - é a de que as obras desses treze artistas revelam claramente a estrutura semiótica da obra da grande artista modernista que foi Tarsila do Amaral. Foi essa estrutura - que permitiu converter em signos pictóricos os nossos padrões culturais - a responsável pela construção de um vocabulário e de uma retórica basilares do nosso estoque de significados.

Antonio Carlos Fortis
antropólogo


* FABBRINI, Ricardo Nascimento. A Arte depois das Vanguardas, Campinas, Unicamp, 2002
** AMARAL, Aracy. Tarsila do Amaral, São Paulo, Finambrás, s.d.

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