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EXPOSIÇÃO
“A Escrita na Arte e a Arte na Escrita”

Fevereiro de 2006 - Espaço Cosipa Cultura - São Paulo

TEXTO DE APRESENTAÇÃO

Quando Ver é mais que Ler

Se Pablo Picasso mostrou que palavras são figuras antes de serem conceitos, sendo, portanto, objeto de discurso da arte, foi com os escritos, projetos e desenhos reunidos por Marcel Duchamp no que chamou de CAIXA VERDE, que surgiram os prolegômenos das poéticas contemporâneas relacionadas com a linguagem. Com essa obra (1912 e 1923) operou-se um casamento entre conceitos visuais e lingüísticos até então inéditos*

Ao considerar suas idéias, reflexões e projetos como partes integrantes da própria obra (a CAIXA VERDE reuniu o material de O GRANDE VIDRO), Duchamp fez ver que a obra de arte precedia e não se esgotava na realização do objeto e que a significação podia se servir tanto das palavras quanto das imagens e das coisas para se expressar.

De fato, a arte é tanto um fenômeno de significação quanto de comunicação**, daí a possibilidade da equivalência do emprego de conceitos visuais e lingüísticos nas artes. São as relações variadas e complexas entre esses domínios, descobertos e desenvolvidos pela arte contemporânea, que a presente exposição no ESPAÇO COSIPA CULTURA discute e explicita.

As principais matrizes discursivas com que os treze artistas contemporâneos refletem sobre o tema “Ver e Ler” nessa mostra são duas, uma delas se organiza em torno dos significantes do discurso visual e a outra em torno dos seus significados.

O grupo que tem como objeto de reflexão a forma, o significante, é constituído pelos artistas: Anna Donadio, Amaryllis Norcia, Helena Falconi, Jaqueline Comazzi e Leilah Costa. Por sua vez, os artistas que privilegiam conteúdos ou significados dos símbolos ou formas discursivas são: Antonio Uemir, Bia Black, Leila Lagonegro, Nina Arbex, Rossanna Jardim, Suzana Garcia, Walter Gini e Yeda Sandoval. As significações discutidas por esse último grupo são de quatro naturezas: religiosa (Nina e Bia), filosófica (Rossanna), cultural (Yeda) e político-crítica (Antonio, Leila, Suzana e Walter).

Cabe ressaltar que a estrutura dessa exposição constitui um grande avanço para a especificação do debate sobre o tema, em virtude de dois principais motivos. O primeiro é o de que a arte contemporânea tomou a ela própria, isto é, a sua própria linguagem, como objeto de reflexão de si mesma (trabalho sobre os significantes), tal como a mostra evidencia. O segundo motivo é o de que os domínios do saber, os campos de conhecimento e de atividade que as artes visuais tomam como objeto de pesquisa, tornaram-se ilimitados.

Finalmente, há pelo menos uma grande lição a extrair dessa exposição: tudo que é visto é lido, mas nem tudo que é lido é visto. O que corresponde a dizer que sempre se interpreta o que se vê e que essa interpretação interfere na visão e a precede. Só se vê o que já se sabe, já que a teoria vem antes da experiência e a constrói. Daí a dificuldade de lançar um novo olhar sobre o que já se conhece e, pior ainda, a tendência de interpretar o novo com os velhos conceitos. Por isso, por paradoxal que possa parecer, é preciso desaprender a “ler” para poder ver, diz a presente mostra que o visitante tem o privilégio de observar.

Obras do primeiro grupo: A obra de ANNA DONADIO consiste da inscrição do poema ÁGUA SEXUAL (usar itálico aqui) de Neruda ao longo de um corpo feminino. Suporte do texto, o corpo feminino confere-lhe vida e mobilidade. Ao apresentar a fotografia de um corpo para ser visto e lido ao mesmo tempo, a artista discute o importante paradoxo, atinente a arte contemporânea, de que ver é sempre ler, embora ler possa ser apenas ver.

Para AMARYLLIS NORCIA letras são signos. Signos infantis tais como mala, carta, olho, boca, caneta, garrafa, espelho, bola, pipa, pena, barquinho, chupeta, flor, coração, dado, borboleta. Todos eles bordados ou aplicados sobre uma única peça de tecido. Salvos da dispersão e da fragmentação, mediante sua reunião na obra, os signos isolados da artista são recolhidos, arregimentados e alinhavados numa delicada poética feminina em que a vida é feita de detalhes e em que o sentido só é conseguido pelo esforço de juntar e fixar esses detalhes numa única tessitura.

HELENA FALCONI expõe esculturas de gel transparente em cujo interior se encontra uma profusão de letrinhas coloridas iluminadas. O complemento interativo das esculturas são gelatinas com letrinhas comestíveis para degustação. As esculturas da artista despertam o desejo que as gelatinas permitem realizar a partir de uma mágica poética de graça infantil. Ao fazê-lo, no entanto, revela-se todo o alcance da arte de hoje: ela pode ir tão longe na interação emissor-destinatário que pode até mesmo ser comida por este. Nesse caso, revela que uma certa culinária é capaz de alcançar o estatuto de arte.

JAQUELINE COMAZZI apresenta montagens de acrílico em cujo interior encontram-se partes de um livro antigo de René Descartes sobre as quais ela interfere de diversas maneiras. Seja vazando, seja cobrindo as páginas, trata-se sempre do apagamento do texto, do encobrimento e da suspensão da palavra escrita. A proposta óptica da artista de impedimento da leitura concita o observador – depois de o sujeitar a uma frustração compulsória – a descobrir a verdadeira mensagem da obra: há que descer até o ato que precede a leitura e ali permanecer. Há que tentar ver antes de ler (interpretar), pois sendo a visão culturalmente condicionada, ela já é leitura. Para ter acesso a esse estágio puramente retiniano é, portanto, preciso que ler seja impossível.

O suporte em que LEILAH COSTA apresenta a sua obra é a tela do computador. Nela o observador vê palavras se separando em letras que por sua vez se constituem em corpos humanos. Mediante a lógica binária da computação, a poética da artista consiste em transformar símbolos (palavras) em signos (letras) e esses em significações (corpos humanos se envolvendo, se tocando, se amando). É nisso que consiste o lirismo do seu trabalho: metamorfosear operações lógicas em movimentos de vida, sensualidade e emoção.

No segundo grupo, ANTONIO UEMIR expõe três painéis que consistem de primeiras páginas de jornais que enfatizam os temas da corrupção, da disputa eleitoral e da impunidade. O artista interfere com frases críticas e com barras de prisão sobre as imagens das personagens. O contra-discurso crítico e a prática da interferência gráfica como procedimento estético de que ele se vale, revelam uma aquisição notável do campo das artes visuais: a amplitude de recursos oferecida pelo casamento dos conceitos visuais com os lingüísticos na construção da sua discursividade.

A obra de BIA BLACK é constituída por dois grandes cubos pendentes do teto do espaço expositivo. Um cubo de madeira e outro de acrílico transparente. Letras hebraicas que constituem o nome de Deus aparecem vazadas no primeiro cubo de onde são retiradas para figurarem no interior do cubo transparente. Os contrastes formais entre claro e escuro, cheio e vazio, depressão e relevo, opaco e transparente invocam materialmente as oposições entre espírito e matéria, luz e trevas, bem e mal. No entanto, invocam também a noção revelada pela arte contemporânea de que ler pode ser apenas ver e nada mais se o destinatário não possuir a chave interpretativa ou a base teórica para decodificar a mensagem a sua frente. A própria artista esclarece: “na palavra homem (ish) e na palavra mulher(ishá) escritas em hebraico , a presença de Deus está escrita por duas letras contidas nestas palavras(iud e he). Ao serem retiradas estas letras, das palavras ish e ishá , o que resta é a palavra fogo( esh),simbolizando a paixão”.

LEILA LAGONEGRO apresenta um banner integralmente estampado com propagandas de laboratório sobre as quais sua pintura constitui uma interferência tão avassaladora que os torna quase imperceptíveis. De fato, o fundo textual é, por assim dizer, esmagado pela figuração informal e pela coloração intensiva que o recobre. O que expressa, no plano da expressão, a indignação da artista com a violência social da indústria farmacêutica (plano do conteúdo). A sua obra, no entanto, trata o diálogo entre o lido e o visto, entre o discurso mercadológico e o estético pela sujeição e mesmo pela supressão do primeiro pelo último. No limite, trata-se da disputa das formas discursivas pela posse do espaço da obra.

NINA ARBEX expõe dois grupos de painéis de seda em forma de ogivas pendentes do teto da sala da exposição. De cada painel do primeiro grupo consta uma palavra da frase: “No princípio era o Verbo”. Os painéis do segundo grupo apresentam a frase: “E se fez...”. Por meio de suas transparências coloridas, Nina convida o observador para uma experiência religiosa entre vitrais de uma catedral gótica translúcida e esvoaçante. Isto é realizado mediante a união do ver e do ler, da imagem e da palavra, do retiniano e do interpretativo a serviço da mensagem que os ultrapassa.
Com a pintura de uma grande máquina de escrever com papel no cilindro, no qual se lê a enigmática frase: “O Todo é Simples”, ROSSANNA JARDIM oferece sua leitura plástica da relação entre a palavra escrita e a imagem na arte que exerce. Para ela, ver é ver coisas interessantes com enormes dimensões e com cores muito brilhantes. Ler, por outro lado, consiste - nessa obra - em pensar, refletir, entender. No entanto ambas as ações podem se combinar e colaborar na medida em que são vistas juntas. Curiosamente, porém, é com um complexo fragmento de imagem que Rossanna discursa sobre a simplicidade do todo.

Uma imensa e informe assinatura, centenas de vezes maior que o magistrado que a faz – um pequeno bonequinho montado sobre uma grande caneta -, é a obra com que SUZANA GARCIA contesta o abuso de poder da magistratura. Ironizando um poder desproporcional, exercido por personalidades insignificantes que o tornam ilegítimo, embora legal, a artista se serve do espaço expositivo, ele próprio, como espaço de comunicação pública, como espaço político que é. Assim, a arte contemporânea mostra que o espaço museológico não é nem privativo nem neutro.
A “Torre de Papel” de WALTER GINI é constituída por caixas de papelão de diferentes nacionalidades, empilhadas umas sobre as outras. Em todas elas destaca-se a palavra frágil em conformidade com seus idiomas de origem. Metáfora política, irônica e bem-humorada do mundo globalizado, a obra do artista destaca a universalidade da comunicação escrita e do intercâmbio transnacional em contraste com a vigência dos conflitos nacionais e étnicos: a palavra frágil está escrita em árabe e em hebraico na mesma caixa. Trata-se da fragilidade da comunicação e da trans-territorialidade diante das fronteiras da barbárie.

A “Árvore do Conhecimento” de YEDA SANDOVAL é constituída por três estruturas de guarda-chuvas de cujas hastes pendem lâminas de acetato com nomes de criadores de mensagens relevantes. Os visitantes podem depositar nas hastes os nomes de quem desejam homenagear. Espécie de memorial que destaca não o discurso mas seu emissor, a obra de Yeda discute a autoria em nível coletivo por meio de uma obra coletiva.

Antonio Carlos Fortis
antropólogo


*Cf. FREIRE. Cristina, Arte Conceitual. Rio, Jorge Zahar, 2006.
**Cf. CALABRESE. Omar, A Linguagem da Arte. Rio, Globo, 1987.



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