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EXPOSIÇÃO
Diálogos com Drummond

março de 2009 - Pinacoteca Benedicto Calixo - Santos - SP

TEXTO DE APRESENTAÇÃO

Leituras de Drummond

A arte enfrenta o mesmo dilema de Ulisses ao saber, em sua volta para Ítaca, que teria que se confrontar com o canto das sereias que o levariam para o fundo do mar para sempre. Para não perecer, ele pede aos marinheiros que o amarrem ao mastro do navio. Escuta, assim, os encantos, mas tem a certeza de que não morrerá. Abre mão de parte de sua liberdade em nome de um benefício maior: o da própria existência.

Um grupo de criadores tomam o tema Carlos Drummond de Andrade como mote para desenvolver suas obras. Cada um escolhe um caminho, amadurece uma idéia que conduz a uma vereda da visualidade e do pensamento em que a ampla liberdade de escolha é um prazer e um desafio.

Profano e sagrado – Uma ponte entre o mundo contemporâneo e o mito grego é feita por Suzana Garcia. Ela parte do poema “A máquina do mundo” para, conceber, com pintura e desenho sobre reprodução fotográfica, o diálogo entre o LHC (Large Hadron Collider) – o maior acelerador de partículas, inaugurado em 2008, que busca entender a origem do universo – e a águia, ave que, no mito grego, devora o fígado de Prometeu, que roubou a inteligência dos deuses para outorgá-la aos homens.

Verticalidade – Essa relação entre o plano sagrado, da criação, e o humano, terreno, surge ainda em dois trabalhos que têm como ponto de partida o poema “Além da terra, além do céu”. Renata Meirelles concebe uma espiral com dois tipos de arame, onde tecidos pendurados reforçam a idéia da passagem do tempo e das experiências vividas, enquanto Jaqueline Comazzi, com seu balanço, alia a solidez da matéria à fragilidade do efêmero.

Individualidade – Elaborações de igual impacto visual no conjunto da exposição são as de Lucia Rosa, que se vale da poesia “A flor e a náusea” para focar a força humana de viver mesmo num mundo de cerceamento e dor, e Nina Arbex, que, com base em “E agora, José?” insere a discussão daquilo que somos e daquilo que podemos ser e ainda do que podemos ser quando assumimos o fardo e a responsabilidade de conduzir o próprio destino.

Resíduos – Essa idéia de relacionar às experiências individuais com o universo literário de Dummond surge forte em Edith Popluhar, que constrói um caminho vivencial, a partir de “Os ombros suportam o mundo”, pela costura de retalhos e colagem de elementos biográficos, como fotos e remédios, e em Cida Ornaghi, que utiliza versos do poema “Resíduo” para falar dos restos de todos nós, expressos em sobras de areia, terra, serragem, papéis e tecidos queimados e cabelos.

Pedras e piões – Em termos de uma materialidade que comporta uma metáfora, a pedra, no célebre poema “No meio do caminho”, aparece em alguns trabalhos. Leila Lagonegro, em sua pintura, valoriza as “retinas tão fatigadas” mencionadas no texto, enquanto Walter Gini faz uma instalação na qual atua com piões que substituem as pedras e serão colocados no piso do espaço expositivo.

Poder do objeto – A adversidade não precisa ser negativa. Ela motiva. É o que faz Helena Falconi, que emprega como texto estimulante de seu processo “A Doida”. As pedras são vistas como objetos que tanto podem agredir como defender. Aliás, essa presença dos elementos do cotidiano como símbolos se evidencia com Rossanna Jardim que, com base em diversos contos do livro 70 historinhas aponta como todo elemento concreto carrega a afetividade e o sentir do mundo de seu portador.

Sedução – Nesse campo da emoção e ambigüidades, Vicencia Gonsales, ao interpretar o poema “Caso do vestido”, contrapõe o sentimento da dor da traição ao da manutenção do ser amado junto a si. Igual sedução, só que numa atmosfera mais diáfana, se faz presente com Terezinha Nogueira, que aproveita a “Canção da moça fantasma de Belo Horizonte” para refletir sobre o que é velado nas relações humanas.

Textos – Muitas vezes, a escrita ganha importância. Em Yeda Sandoval, é a questão estética que encanta pelo jogo entre as letras em primeiro plano e palavras ao fundo. O texto emana de outras maneiras, como ocorre com Leilah Costa, que, em sua obra em mosaico, escreve “Na cidade estava escrito um poeta”, recriação dela da frase “No mar estava escrito uma cidade”, do poema “Mas viveremos”, reproduzida em um banco na praia de Copacabana onde está a estátua que homenageia Drummond.

Mulheres – Palavras brotam ainda na fotografia de uma mulher negra de “ardiloso sorriso” de Anna Donadio, criada com fonte no texto “Gioconda”, e nos puffs, nos quais a pessoa pode se sentar livremente, de Suzanne Mabilde, que se valem de diversas referências a obras do escritor mineiro para lidar com silhuetas femininas e todo seu potencial de sedução, prazer e a ambigüidade de gerar emoções.

O duplo – A idéia de dualidade sustenta o trabalho de Cristina Matarasso que, em tinta acrílica, lança seu olhar sobre o “Poema da Purificação”, desenvolvendo a luta entre o anjo bom e o mau, com um filete de sangue a penetrar no fluxo da vida, e de Glaucia Fisher, que parte da crônica “Compra uma cadeira” para compor uma instalação de miniaturas desses objetos que evocam as mais variadas memórias pessoais.

Sutileza – A delicadeza dessas duas obras propõe um profundo mergulho existencial. O mesmo ocorre com o objeto criado por Rose Romano. Seu elemento estimulador é o livro infantil de Drummond Rick e a girafa. Aliando desenho e elementos como papelão e tecido com recursos de colagem e costura, fabrica um sutil livro-objeto de oito páginas.

O toque – Ele não é só para ser visto, mas também tocado. É justamente nas associações que as mãos propiciam que duas obras encontram motivação. Claudia Di Paolo cria, com base no poema “A mão suja”, com numerosas mãos, uma maior, onipresente, enquanto Vivian Marin parte do texto “Mãos dadas” para elaborar em resina duas figuras de mãos dadas como imagem de união e companheirismo.

Os trabalhos reunidos nesta exposição constituem releituras da obra de Carlos Drummond de Andrade que têm em comum a mística busca de Ulisses por um porto seguro com o uso de diversos recursos fora de seu contexto original, o diálogo do grande com o pequeno, a mescla de técnicas e, acima de tudo, a conversa entre o fazer e o pensar para construir representações visuais diversificadas e ricas em interpretações.

Oscar D’Ambrosio,
Jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 


 
 
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