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EXPOSIÇÃO
“Branco no Branco”

Fevereiro de 2006 - Espaço Cosipa Cultura - São Paulo

Uma rica e diversificada exposição de obras que abordam o “branco” no âmbito da arte contemporânea será aberta ao público no dia 15 de Janeiro às 20h no Espaço Cosipa Cultura.

Promovida pelo Estúdio Contempoarte e organizada pelo artista-curador Waldo Bravo a exposição “Branco no Branco” reúne um rico panorama de experiências feitas a partir do desafio proposto a um grupo de artistas: desenvolver obras utilizando 95% de branco.

A cor é o mais contundente objeto da percepção imediata. A paixão cromática despertada por ela, constitui, por isso mesmo, uma barreira para a compreensão da obra. Eliminada a cor, sobra o essencial, o conceitual, o proposicional de cada uma das diversas linguagens de que hoje se servem as artes visuais.

“Não obstante a relevância das questões internas ao campo das artes às quais responde esta exposição, o mistério mesmo do branco, por si só, possui enorme interesse para o público em geral e para a reflexão estética em particular. Como bem o disse Herman Melville: ... não resolvemos ainda o problema da magia da cor branca nem descobrimos por que razão ela atrai a alma com tal força ... todas as outras cores terrestres ... não são mais do que ilusões sutis de modo algum inerentes à substância ... E, ainda mais quando consideramos que o mistério cromático, ou seja o grande princípio da luz, permanece para sempre branco...” , diz Antonio Carlos Fortis, o Antropólogo e Critico de Arte que apresenta a mostra.

“Seja para a observação do aprofundamento das relações entre o espaço da obra e o espaço que a abriga, seja para a pura fruição da beleza do vazio, da luz e do silêncio que a presente exposição oferece, o visitante tem muito o que obter das obras dos quinze artistas plásticos expressas por meio de oito diferentes linguagens: Pintura, Assemblage, Montagem, Instalação, Escultura, Monotipia, Objeto e Performance”, Fortis complementa.

Os 15 artistas plásticos participantes da mostra são: Amaryllis Norcia, Anna Donadio, Antonio Uemir, Araci T. Ishida, Cristina Pacheco, Di Priolo, Evelina Villaça, Helena Falconi, Jaqueline Comazzi, Leilah Costa, Marilene Agonilha, Nina Arbex, Suzana Garcia, Yeda Sandoval e Walter Gini.

TEXTO DE APRESENTAÇÃO

Branco na Obra. Obra no Branco.

A regra básica instaurada pelo curador Waldo Bravo como tema para os artistas participantes dessa exposição foi esta: 95% de branco!

O tema na verdade constituiu um problema para os artistas, na medida em que tiveram que renunciar ao uso da cor, já que ela consistia do fundamento da obra de muitos deles.

De fato, segundo as palavras do próprio curador, a cor é o mais contundente objeto da percepção imediata. A paixão cromática despertada por ela, constitui, por isso mesmo, uma barreira para a compreensão da obra. Eliminada a cor - acrescenta ele - sobra o essencial, o conceitual, o proposicional de cada uma das diversas linguagens de que hoje se servem as artes visuais.

Sob certo ponto de vista, a história da arte contemporânea - do pós modernismo - é a história da crescente indistinção entre o espaço expositivo e o espaço da obra. História, portanto, da sua associação numa mesma unidade de discurso. Assim, dissolvidos os limites das obras [molduras, formatos, volumes], a própria galeria se transformou em superfície pictórica*. Uma das extremas conseqüências dessa transformação, ocorreu com a exposição O Vazio de Ives Klein, na qual ele apresentou apenas as próprias paredes brancas da galeria [Iris Clert] como obra, para - em suas próprias palavras - “atestar a presença da sensibilidade pictórica em estado de matéria-prima”*.

Ora, tomar o branco com todas as suas conseqüências como retórica expositiva, é [re]discutir os termos da construção da espacialidade contemporânea nas artes visuais. Nesses termos, a presente exposição consiste não apenas do total envolvimento das espacialidades das obras com o ambiente envolvente, mas principalmente da transformação do espaço exterior à obra [o branco museológico] em objeto de reflexão do seu espaço próprio: o esvaziamento ensejado pela presença exclusiva do branco nas obras-as homologa já ao vazio circundante.

Não obstante a relevância das questões internas ao campo das artes às quais responde esta exposição, o mistério mesmo do branco, por si só, possui enorme interesse para o público em geral e para a reflexão estética em particular. Como bem o disse Herman Melville: “... não resolvemos ainda o problema da magia da cor branca nem descobrimos por que razão ela atrai a alma com tal força ... todas as outras cores terrestres ... não são mais do que ilusões sutis de modo algum inerentes à substância ... E, ainda mais quando consideramos que o mistério cromático, ou seja o grande princípio da luz, permanece para sempre branco...”**

Seja para a observação do aprofundamento das relações entre o espaço da obra e o espaço que a abriga, seja para a pura fruição da beleza do vazio, da luz e do silêncio*** que a presente exposição oferece, o visitante tem muito o que obter das obras dos quinze artistas plásticos expressas por meio de oito diferentes linguagens:

Pintura

Francisco Di Priolo expõe um políptico constituído de quatro painéis de dupla face, de tal modo que a totalidade da obra tem que ser reconstituída mentalmente pelo observador ao circular em torno dela. Ao fazê-lo, ele notará que formas puras movimentam-se e se aglutinam no interior de cada quadro, construindo relações entre liso e áspero, figura e fundo, cheios e vazios, cujo resultado é um notável efeito de volumetria conseguido na bidimensionalidade e sem recurso à perspectiva.

O díptico apresentado por Leilah Costa organiza ortogonalmente múltiplos signos alfabéticos e numéricos, constituídos de texturas e semi-tons do branco, re-significando poeticamente o universo digital. O absoluto rigor formal da execução da obra e a racionalidade do campo de significado que ela expressa, revelam, entretanto, uma visão serena e lírica da dinâmica voraz da comunicação no domínio da duração, que é o da bidimensionalidade.

Os relevos de Marilene Agonilha, pintados sobre o suporte triangular em cujo entorno figuram, com sua flora exuberante encobrindo a geografia urbana, constituem um estoque de signos [como as flores quadradas] destinados a transformar poeticamente a natureza da vida cosmopolita a que estamos confinados. É mediante uma sintaxe feminina [uma cartografia do florescimento] que ela recobre o mundo com seus signos para o transformar em jardim.

Assemblage

A assemblage de Walter Gini, constituída de uma estante repleta de cocas-colas com conteúdo branco [leite ?], serve-se de um ícone da cultura globalizada para apresentar não apenas a sua perspectiva estética [ligada à Pop Art e ao Minimalismo] e política [assentimento à ideologia da produção capitalista], mas também para revelar as atitudes de ironia, bom humor e jovialidade envolvidas nessas posturas.

O vocabulário minimalista de Araci Ishida é constituído de termos comuns. É por meio de industrializados-descartáveis - como os coadores de papel da sua assemblage - que ela faz de um mundo de coisas banais, um mundo de coisas extraordinárias, já que para ela são as unidades de uso diário que devem constituir uma totalidade lírica.

A rede ou teia de crochê de Amaryllis Norcia, à qual adere uma miríade de fragmentos usados no dia-a -dia, constitui - na sua linguagem feminina - um campo de significado para objetos insignificantes. Trata-se de uma assemblage para conferir significado conjunto ao que não o possui enquanto unidade. É nessa teia que o caos é convertido em ordem.

Montagem

A montagem de Nina Arbex, constituída de mantos ou turbantes sacerdotais de linho branco, consiste- de um discurso sobre a identidade conferida pela experiência mística da transcendência. Discurso de transfiguração, de silêncio e de esvaziamento [dos papéis sociais habituais], esses símbolos de imensa dramaticidade “falam” do isolamento do mundo e da imersão profunda na interioridade - como a vivenciaram os santos e os místicos. E o dizem mais ocultando que revelando, visto que são sagrados e não há linguagem para os traduzir.

Evelina Vilaça expõe um grupo de silhuetas humanas de vidro, em escala natural, dispostas num campo de areia branca. Esse agrupamento de entes transparentes, de vultos quase imateriais, discute uma relação muito relevante na história da arte contemporânea. Trata-se da relação de transformação do material de que se serve: relação entre o material natural [a areia] e o material transformado [o vidro] na forma de obra, sob a luz incidente na sua diferença.

Instalação

Utilizando o vão central do espaço expositivo, a instalação de Jaqueline Comazzi, alcança todo o seu pé-direito. Envolvendo a abertura de luz do teto com tela branca transparente, presa ao piso por pedras também brancas, ela estabelece um duplo diálogo espacial. Por um lado, um diálogo entre o espaço museológico e a espacialidade da obra e, por outro, um diálogo entre o espaço interno e o externo [que canaliza para dentro] da obra arquitetônica, numa admirável integração. Este túnel de luz, limitado apenas por um véu, evoca a Axis Mundi - região do espaço em que é possível transcender o tempo.

A instalação de Anna Donadio consiste de fotografias digitalizadas, expostas em placas entre espelhos também em placas, em torno e dentro das quais o visitante pode passear. São fotos de fragmentos do corpo feminino que enfatizam a brancura, a textura e a sensualidade da pele, oferecida ao toque do olhar, apenas. A morfologia da instalação - um conjunto articulado de fragmentos pendentes do teto - alude perfeitamente aos recortes corporais sobre os quais incide o olhar da câmera, conferindo à obra um estatuto que ultrapassa em muito o da linguagem fotográfica.

Escultura

O conjunto de esculturas de e.v.a que Helena Falconi apresenta, consiste de colunas elaboradas com recortes - unidades sempre idênticas. O todo que constituem é, no entanto, muito mais que a soma das partes constituintes. Se as esculturas resultam da brincadeira com as formas e da ação lúdica de articulá-las [processo], em conjunto [produto], elas invocam a sensibilidade mais tenra do observador, para notá-las como “árvores de uma floresta branca”, entre cujos troncos se pode brincar.

Monotipia

Obtidas na interface entre a reflexão artística e a etnográfica, as monotipias de Suzana Garcia configuram um singularíssimo registro da cotidianidade contemporânea. Recortadas da exata dimensão dos ambientes cujos pisos recobriram, as lonas brancas dessas monotipias guardaram indelevelmente as marcas da dinâmica da vida ocorrida sobre elas. Seu interesse é duplo, portanto. É, ao mesmo tempo, documento e obra. Obra, aliás, que discursa muito consistentemente sobre o processo contemporâneo de autoria e de criação artística.

Objeto

Os relevos vítreos de Cristina Pacheco possuem uma tal independência e singularidade poética, que faz deles objetos - no sentido estrito que lhes confere a arte contemporânea. Leveza, transparência, brilho e refinamento formal são atributos da sua arte vidreira. Vistos, porém, mais atentamente, eles oferecem a sua própria e nobre resolução para a tensão entre a luminosidade da superfície e a textura absorvente do esmalte branco que os constituem.

Performance

Antonio Uemir, Yeda Sandoval e Performers realizam desenhos vivos no espaço expositivo, estabelecendo um notável diálogo entre pontos e linhas móveis, em que os pontos são os próprios corpos dos performers unidos por fios brancos. Criando, recriando, desfazendo e refazendo os desenhos com os seus corpos, eles constróem uma obra que sempre se perde, nada deixando de si, uma vez que o seu objeto de discurso é o tempo. É do instante sempre diverso, instável e inesperado que ela se constitui e destitui. Nesse sentido, a materialidade da obra se constrói longe dela própria, na medida em que o faz apenas na memória do observador.

Antonio Carlos Fortis
Antropólogo e crítico de arte


*C.f O’DOHERTY. Brian, No Interior do Cubo Branco, SP, Martins Fontes, 2002.
**C.f MELVILLE. Herman, Moby Dick, Rio, José Olympio,1967.
***C.f KANDINSKY. Wassily, Do Espiritual na Arte e na Pintura, SP, Martins Fontes, 1990.


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