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EXPOSIÇÃO
Bosch Medieval: Bosch Contemporâneo

julho de 2008 - Galeria Área Artis - São Paulo

Hieronymus Bosch, foi um pintor e gravador holandês dos séculos XV e XVI.
“A arte como tema da própria arte” - Dialogar com as obras desse ícone da pintura medieval é a proposta dessa exposição que acontece na galeria Área Artis a partir do dia 17 de julho.

A Mostra reúne um instigante panorama de experiências, fruto do desafio proposto a 14 artistas contemporâneos: revisitar as obras desse importante artista para construir diálogos na atualidade.

Cada artista fez uma leitura-própria das obras de Bosch, procurando estimular a sua compreensão e seus significados, abordando temas de algumas dessas obras.

O grande público terá mais uma vez, a oportunidade de entrar em contato com esse fascinante universo medieval, desta vez, mediante da visão renovadora da arte contemporânea.

“Nessa exposição, não apenas a arte é tema de si mesma, mas é sobretudo seu objeto privilegiado de investigação e de reflexão.

Já se disse alhures, com muita razão, que “a arte se nutre da arte”. Mas, como o visitante pode constatar na presente mostra, essa realização não é imediata. Ela é mediatizada por um processo. Processo que transita do consumo para a produção, da desconstrução para a construção, da decodificação para a recodificação.

Para além da fruição das obras, BOSCH revisitado, relido e comentado, permite justamente a percepção e a compreensão desse processo. Processo de confronto de tempos históricos diversos, de sistemas culturais diferentes e de linguagens díspares da arte”, afirma o antropólogo Antonio Carlos Fortis, em seu texto de apresentação.

“Vendo e lendo as releituras de Hieronymus Bosch por esses artistas, o observador atento perceberá um número recorrente de questões extraídas das obras matrizes do mestre, como sejam: o conflito religioso, o desejo e a eroticidade, a simbologia do inconsciente, o estranhamento e a irracionalidade, a linguagem da pintura e o signo e seus significados”, complementa Fortis.

Participam da mostra: Anna Donadio, Araci Ichida, Bia Black, Claudia Di Paolo, Helena Falconi, Leilah Costa, Leila Lagonegro, Lucia Rosa, Nina Arbex, Rossanna Jardim, Suzanne Mabilde, Vera Pamplona, Vicencia Gonsales e Zuleika Bisacchi.

TEXTO DE APRESENTAÇÃO

BOSCH revisitado, relido e comentado.

A arte como tema da própria arte é o objeto da presente exposição que reúne um elenco de quatorze artistas visuais contemporâneos.

Nessa exposição, não apenas a arte é tema de si mesma, mas é sobretudo seu objeto privilegiado de investigação e de reflexão.

Já se disse alhures, com muita razão, que “a arte se nutre da arte”. Mas, como o visitante pode constatar na presente mostra, essa realização não é imediata. Ela é mediatizada por um processo. Processo que transita do consumo para a produção, da desconstrução para a construção, da decodificação para a recodificação.

Para além da fruição das obras, BOSCH revisitado, relido e comentado, permite justamente a percepção e a compreensão desse processo. Processo de confronto de tempos históricos diversos, de sistemas culturais diferentes e de linguagens díspares da arte.

Inevitavelmente, o visitante se perguntará: Por que tomar uma obra do final do período medieval como objeto? Por que a obra de Hieronymus Bosch e não a de outro artista?

A presente exposição é, ela própria, a resposta para essas indagações. As obras que as respondem são apresentadas por dois grupos de artistas. Um deles discute a obra de Bosch metonimicamente. O outro conversa metaforicamente com ela.
Constituem o primeiro grupo, os seguintes artistas:

Anna Donadio
Se certas obras dessa exposição conferem exclusividade a algumas imagens de Bosch, individualizando-as ou as tornando tridimensionais, a imagem fotográfica de Anna, confere-lhes também realidade, substituindo corpos nus pintados por fotos de corpos nus reais. Mais do que isso, ela reconstitui a cena que destaca da narrativa do mestre, fotografando muitos corpos nus juntos. No entanto, mesmo oferecendo realidade visual às figuras do mestre por ela citadas no seu trabalho, o que homologa ambas as obras é menos o que elas revelam do que aquilo que ocultam. De fato, nem Bosch no século XVI nem Anna hoje, no século XXI, se permitiram mostrar o intercurso sexual, apenas enunciado por ambos com cinco séculos de diferença.

Araci Ishida
A obra de Araci sobre Bosch é enganosa. Quem olha sua pequena tela repleta de monotipias coloridas, não vê imediatamente a grandeza do que está inscrito nela: um estudo dos termos do vocabulário de Hieronymus Bosch. Silhuetas-signo, categorias de uma sintaxe exótica, cada um dos signos extraídos da obra do mestre pelo procedimento arqueológico de Araci, tem individualidade própria mas mantém conexões estreitas entre si, tais quais os termos constituintes de qualquer discurso. Leitura metonímica da obra-mãe, esse estudo da artista constitui uma notável contribuição para uma semiose visual do grande pintor.

Claudia Di Paolo
Servindo-se da técnica da colagem, Claudia reapresenta um signo plástico de Bosch. A sua tradução da linguagem da pintura para a linguagem da colagem ilustra muito bem algumas conquistas da arte contemporânea. A primeira delas consiste em que um texto visual pode ser transcrito num léxico diferente, sem conspurcar o valor e a singularidade de ambas as obras. Outra conquista é a de que o mimetismo, expurgado da arte no passado, faz hoje parte do processo criativo. O mesmo ocorrendo com a questão da singularidade autoral, pouco importante em nossos dias. Finalmente, a noção de construção por meio de fragmentos diz muito sobre o presente momento histórico destituído de narrativas totalizantes.

Helena Falconi
Helena destaca um signo forte do Jardim das Delícias de Bosch para lhe dar três dimensões. Essa nova visibilidade deveria acentuar a natureza do signo, otimizando o seu impacto. Como se trata da imagem do confronto de um rosto (sem corpo) com um rato, as emoções transmitidas deveriam ser o terror e o pânico. No entanto, as sensações despertadas pelo tridimensional da artista são a estranheza e a absurdidade. A razão dessas transformações dos significados do signo, do terror para a estranheza e do pavor para o bizarro, repousa justamente na mais notável das características da poética de Helena: converter todo o visível numa brincadeira para o olhar.

Leila Lagonegro
Se, nessa exposição, alguns artistas discutem Bosch pelo viés do erótico, da religião, da ética, da semiótica ou da arte propriamente, Leila o faz a partir do ponto de vista psicanalítico. Psiquiatra e artista visual, a artista não confronta a narrativa do mestre, mas a exalta e enfatiza, destacando com a sua própria obra um signo emblemático da obra que investiga: a orelha. Para a artista, a obra de Bosch “é quase o inconsciente a céu aberto” e a orelha, enquanto “instância super egóica que cria o sofrimento”, é seu signo central. Mas a obra de Leila não é psicanalítica, é artística. Ela é técnica pastel sobre o suporte de papel na qual a temática do inconsciente encontra-se a serviço de uma força plástica extremamente vigorosa. Nesse sentido, o viés temático da sua releitura do mestre, disserta, antes de tudo, sobre a fecundidade e a abrangência do universo das artes visuais em geral e sobre a obra de Hieronymus Bosch em particular.

Rossanna Jardim
A pintura exposta por Rossanna homenageia Hieronymus Bosch nos próprios termos deste. Isto é, por meio de uma pintura figurativa, na forma de citação. Essa leitura aparentemente tão próxima da retórica visual do mestre, na verdade, explicita as diferenças irredutíveis entre as linguagens das pinturas dos seus respectivos períodos históricos. São essas as principais diferenças estabelecidas pela artista: o único no lugar do múltiplo, conversão do secundário no principal, retrato de coisa em vez de retrato de pessoa, eixos diagonais substituindo eixos ortogonais, figura sem fundo perspectivado, cor desvinculada da forma. Essa homenagem de Rossanna ao mestre é também uma primorosa aula de história da pintura.

Vera Pamplona
Para quem os vê pela primeira vez, os desenhos de Vera apresentam uma ambigüidade: trata-se de laudos renascentistas de dissecção de órgãos humanos reproduzidos sobre vidro ou de experimentos gráficos contemporâneos? É justamente a sugestão visual dessa duplicidade que melhor revela a sua natureza conceitual. De fato, os desenhos da artista são, ao mesmo tempo, exímias paráfrases dos carvões forenses renascentistas e imagens vítrias contemporâneas. Esse hibridismo entre temporalidades e materialidades diversas, expresso nas citações de Vera, revela claramente a contemporaneidade da leitura do mestre revisitado.

Vicencia Gonsales
A leitura de Bosch por Vicencia é uma leitura mais poética do que simbolista. O fraseado que ela extrai da retórica do mestre é quase musical, tal como se notas musicais evolassem de um instrumento de sopro. É assim que convém ler a sua transcrição tridimensional desse excerto da pintura de Bosch: pássaros ou notas musicais emergindo do funil-instrumento sonoro, para alçarem o céu, evadindo-se, unidade por unidade, da fonte comum de onde brotam continuamente.

O segundo grupo é constituído pelos artistas:

Bia Black
A pintura com que Bia resenha a obra de Hieronymus Bosch chama a atenção pela concisão, pela síntese e pela economia de recursos do repertório da própria linguagem da pintura. Trata-se de pintura vis-à-vis a pintura, como se a mente e o olho do século XVI estivessem confrontados com a mente e o olho humano do século XXI. Em Bosch, encontra-se uma imensa profusão de formas, cores, figuras, signos, narrativas, mitos e delírios no concerto febril do ethos e da visão de mundo medievais. Em resposta, a pintura da artista oferece apenas a cor, sob uma primorosa técnica. Inteiramente fiel ao significado da pintura de seu tempo, Bia dialoga com Bosch por contraste absoluto. O que, porém, é muito curioso, é o fato de que ao expressar o seu próprio tempo, a obra de Bosch – fruto de uma sociedade tradicional – é de complexidade sem igual, enquanto a obra da artista – expressão de uma sociedade complexa – é extremamente “simples”.

Leilah Costa
Embora a temática dominante de Leilah seja a mesma de H. Bosch, a saber, corpos em contato, neste trabalho a artista comenta a obra-referência do mestre por meio da imagem de um único corpo isolado. A grande mensagem de toda a obra de Leilah Costa é a de que a discursividade do corpo é de natureza lingüística, do mesmo modo que a natureza da língua é também corporal. No entanto, há que se indagar: Por que nesse comentário de Os Sete Pecados Capitais de Bosch um único corpo branco brilha incólume, isolado do fogo que não o pode consumir? Ou em outros termos: o signo dominante da obra – tal como um corpo humano entre outros corpos - poderia se manter imune a toda contaminação por seus múltiplos e diversos significados?

Lúcia Rosa
Embora constituída de numerosos elementos, a obra de Lúcia é estruturalmente dupla. Uma parte dela é diretamente referida a Bosch. A outra, consiste de uma construção totalmente sua, mas aparentemente desvinculada da primeira. Esse duplo momento da obra consiste dos dois quadros que estão no chão e sobre os quais a artista coloca a sua obra tridimensional. Ora, Lúcia propõe sentar sobre a simbólica do autor mencionado nos quadros do piso. Seu discurso visual diz que aquela simbólica pode funcionar como base apenas e que uma obra mais ampla e complexa, material e simbolicamente, deve se erigir sobre ela. Ou melhor, das cinzas dela, já que os quadros do piso encontram-se parcialmente queimados.

Nina Arbex
A obra que Nina apresenta nessa releitura de Hieronymus Bosch consiste de um diálogo de grande intensidade com o pensamento do incomparável artista. O conflito medieval entre a carne e o espírito, que é figurado na obra de Bosch, é imediatamente abordado por Nina, ela que é uma artista do sagrado. O resultado imediato no plano expressivo de sua obra consiste numa reviravolta no trato do seu material de base, no seu suporte – a seda. A artista queima as suas sedas transparentes. Nega-as, macera-as e as desfigura. O seu trabalho se divide em dois blocos. Um dedicado a Bosch, onde o material – a seda – aparece desfigurado e outro, onde se encontra o seu espaço próprio, no qual o mesmo material aparece claro, transparente, leve e diáfano. O diálogo visual de Nina com Bosch é um diálogo teológico intenso, vital, escatológico.

Suzanne Mabilde
Autos retratos pós-modernos: eis como poderiam ser definidas as obras que Suzanne apresenta nessa exposição. Não se trata, porém, apenas de imagens visuais dela própria, mas principalmente de reflexões biográficas visíveis. Arquiteta e fotógrafa, Suzanne une a imagem bidimensional à forma tridimensional, a delicadeza e sensibilidade das formas fotografadas à rigidez volumétrica regular dos cubos que as sustentam, as imagens de sombras à luz interna dos seus objetos, o bailado do corpo feminino à estabilidade da mais estável das formas geométricas. Essas fusões de princípios opostos revelam o próprio como se fosse outro, o sólido como se fosse translúcido e a luz por trás das sombras. Tomando a si mesma como objeto de reflexão, Suzanne pensa as relações entre corpo, espaço e luz, extraindo os seus princípios básicos: oposições e conjunções. O que, porém, determina a expressão desses princípios é o seu irredutível desejo de beleza.

Zuleika Bisacchi
Sacralidade e corporalidade são os dois conceitos básicos que Zuleika extrai de O Jardim das Delícias de Bosch para os comentar na sua obra. Embora ela denomine o seu oratório, repleto de pequenos corpos, de Suruba Garden, o que ele realmente ostenta, são corpos dentro de um sacrário, tais quais embriões dentro de um útero. É curioso notar que o erotismo em conflito com o religioso de Bosch aparece em Zuleika como fecundidade potencial abundante, mas sem conflito. Ao contrário disso, tal fecundidade constitui o conteúdo mesmo da sacralidade.

* * *
Vendo e lendo as releituras de Hieronymus Bosch por esses artistas, o observador atento perceberá um número recorrente de questões extraídas das obras matrizes do mestre, como sejam: o conflito religioso, o desejo e a eroticidade, a simbologia do inconsciente, o estranhamento e a irracionalidade, a linguagem da pintura e o signo e seus significados.
Compete ao visitante responder as suas próprias indagações, a partir das respostas oferecidas pelos artistas, com suas obras, a essas eternas questões.



Antonio Carlos Fortis
antropólogo


 
 
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